Entrevista a Joana Clara | Daily Improve

A Daily Improve é uma rubrica dedicada a uma vida mais consciente e sustentável. Que se foca em nós como agentes do futuro e nas nossas ações como pequenos passos para tornar o mundo e a nossa vida melhor. Não somos super-heróis, não fazemos tudo perfeito, mas há coisas, pequenas coisas que podem fazer toda a diferença. E pouco é sempre melhor que nada!

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Joana Clara. Pocahontas, irmã do vento, menina da terra e das memórias, de histórias que se eternizam em cada respirar.

Encontrei-a envolvida num casaco que só poderia ser dela, com folhas verdes da selva e o laranja dos tigres. O sorriso caloroso e o abraço que nunca falta, da sua parte. Recebeu-me na sua casa, um lugar de magia, que faz a qualquer um perder a cabeça. Daqueles lugares que queremos sorver até à última gota e registar na memória do “para sempre”.

Acanhada por momentos, mas livre na resposta, desprendida como se querem as almas índias e ciganas. A Joana tem um pouco das duas e nunca saberemos bem qual dos lados nos apaixona mais. Falamos de muita coisa, mas principalmente de memórias, de histórias, de objetos que significam família, da mãe-terra e de sermos melhores, um passo de cada vez – esse que é o lema-mor desta rubrica.

►3 palavras para te definir: Natureza, Vento, Ninho;

►Se pudesses escolher apenas uma coisa da tua casa, o que seria? Escolheria sempre o primeiro livro que a minha mãe de ofereceu, O Principezinho, de Antoine de Saint-Exupéry;

Um livro: O Monte dos Vendavais, de Emily Brontë. É o meu livro favorito de sempre.;

Um lugar fora do ninho: Fraga da Pena (Coja, Coimbra). Passava lá os meus verões porque é a terra do meu bisavô paterno.;

Uma estação do ano: Primavera;

Um cheiro irresistível: O cheiro da minha avó;

Um pequeno-almoço de eleição: Tem que ter sempre fruta, panquecas de aveia ou de banana e canela. E depois tem que ter o Gonçalo.;

Uma peça de roupa especial: Vestido, sempre;

Uma marca que se identifique com este teu estilo de vida e porquê: The Body Shop;

Uma curiosidade sobre a Joana ou algo que quase ninguém saiba: Há uma coisa, que muita gente não repara, se calhar só as pessoas mais próximas de mim é que sabem. Eu tenho um tique que é mexer nas orelhas, acalma-me imenso.

Histórias & Memórias

Eu cresci entre botões e tecidos. Cresci rodeada disto e para mim os tecidos são histórias, eu não encaro os meus vestidos como um consumo de moda, porque todos os meus vestidos têm uma história.

A Joana cresceu rodeada de tecidos, botões, máquinas de costura e um amor grande pelas memórias. Desde as mais antigas, onde recorda os moldes feitos em guardanapos e os restos de tecidos do pai – retroseiro -, que aproveitava para costurar vestidos para as suas bonecas até às mais recentes, onde revive entre sorrisos as peripécias que viveu, quando mudou para aquela que é a sua primeira casa e que tão carinhosamente apelida de Ninho do Vento.

Além do pai, também as duas avós estiveram sempre ligadas ao trabalho com a agulha e o dedal, e foi esta convivência familiar no seio do comércio tradicional português, que a fez olhar para a roupa e mais em concretamente, os seus vestidos, de uma outra forma.

Um vestido foi comprado numa loja vintage, que já deve ter sido vestido por duas ou três pessoas, se calhar passou de uma bisavó para uma avó e depois para uma filha e uma neta. Alguns deles até foram depois remendados pelo meu pai, porque comprava o vestido, achava que aquele padrão me fazia lembrar uma tarde de verão com a minha avó, uma saída com amigas, um por do sol, porque os vestidos também me fazem lembrar memórias.

Para ela, os vestidos não têm fim. Podem sempre ser reinventados, acrescentados outros tecidos ou botões, feitas bainhas e mesmo que a cor se esbata, continua a usá-los porque a faz recordar de um momento inesquecível. Tem um charriot cheio deles – muitos há anos – que considera a sua estrutura. Tal como uma árvore, Oliveira de seu nome, e os vestidos as suas ramificações. Fazem parte dela, assim com os objetos.

Quem já teve o privilégio de conhecer a casa da Joana, é presenteado com uma autêntica exposição de objetos singulares e cheios de significado, que vivem numa comunhão e harmonia perfeitas. Não há canto algum, que não nos faça suspirar de amores ou querer fotografá-lo. Dos mais ligados à natureza, aos objectos antigos e de colecionador, aos representantes de histórias da Disney e de outras sagas, aos móveis e às plantas, todos eles representam uma memória e um viver muito seu.

Como aquele móvel de bambu que é o seu preferido e que foi com o Gonçalo – a sua metade – buscar para os lados de Camarate. Encontraram-no à venda no OLX, pertencia a uma senhora velhinha que tinha uma mercearia de bairro e que trazia consigo já uma história. E outra que logo se adicionou no caminho da sua nova casa: “nós fomos buscá-lo na carrinha do pai do Gonçalo, que não fechava a porta, isto coube por uma nesga! E teve de vir com uma corda para não sair”.

Reuniu na sala cada bocadinho de si, a natureza, a ligação às rotas marítimas e aos descobrimentos que lhe lembram a infância passada entre a Aldeia do Meco e a Régua. Numa prateleira encontramos com orgulho, a coleção de máquinas fotográficas, entre elas a primeira e tão especial oferecida pelo avô, uma Kodak Brownie, que a fez ganhar o gosto pela fotografia e por tantos outros objetos que contam a sua história, de quase 30 anos.

Sinto-me sossegada ao pé das minhas memórias. A minha ligação aos objetos nunca foi uma questão material, mas sim emocional, quando algum se parte algo quebra-se em mim também.

Diz que “o esquecimento é doloroso”, fardo que aprendeu com a doença do avô (Alzheimer) e por isso cresceu a dar valor às memórias e àquilo que significam, tentando perpetuá-las no tempo, através dos objetos e dos diários, que ainda hoje guarda, a par das cartinhas que escrevia à avó na escola primária. Na voz, senti-lhe o cuidado e a ternura com que fala dos seus, um brilho que passa dos olhos para o sorriso e que encheu a sala onde estávamos.

A arte de viver demoradamente

Quem segue esta andorinha sabe que se deleita com momentos demorados, comida do bem e com o ronronar do Nicks – o seu gato. Por isso, quis saber porque era adepta do slow living.

Para mim o slow living passa por quando estou em casa, estar o máximo tempo na cozinha, a desfrutar das coisas que trago da minha horta. Gosto muito de acordar mais tarde ao sábado e poder ir à minha horta e trazer um bocadinho de hortelã, trazer um bocadinho das minhas especiaria e começar a preparar o pequeno-almoço e o almoço.

Estar sozinha a ler o seu livro, poder fazer meditação, aulas de yoga e praticar pilates em casa, são as suas formas de viver de modo slow. Estar com as suas pessoas, aproveitar os momentos, os cheiros, os sabores e o calor.

Sempre sentiu a vontade de viver as coisas muito devagar e apreciá-las por inteiro, mas quando começou a ter profissões mais exigentes e ritmadas, foi a procura de algo no extremo oposto que a levou a encontrar na sua casa, o seu refúgio. Como o fazia em criança, quando praticava ginástica acrobática, era ali o seu momento com ela própria, de foco e concentração, fora do ruído e das preocupações da vida lá fora.

Foi assim, nos momentos de calmaria e coração leve, que aprendeu também que para alimentar o seu lado artístico, não precisava sempre de vasculhar nas memórias mais profundas e dolorosas, que na felicidade máxima também se consegue encontrar essa forma de expressão, que é tão importante para ela.

Enquanto indivíduo eu tenho impacto, não só na minha forma de ver o mundo mas também na forma como vou prolongar a minha essência (…) todas as ações que eu tenho enquanto ser humano vão ter repercussões no futuro dos meus filhos, dos meus netos.

Mais consciente e sustentável

No local de trabalho, prefere os copos de vidro ou esmalte – os seus preferidos – para beber café e os tupperwares de vidro para as marmitas, afim de evitar o plástico. Tenta usar o mínimo possível de papel e, sobretudo desde que tem o seu próprio ninho, poupa ao máximo no consumo de água porque se impressiona com os números dos estudos que vê sobre a quantidade de água que é gasta todos os dias, por ano. Quando vai às compras, tenta sempre não levar tudo em sacos de plástico, como alguns legumes ou as bananas, apesar de assumir que nem sempre consegue, esforça-se para fazer sempre um pouco melhor. É aquela amiga que está sempre a dar na cabeça e a relembrar da importância da reciclagem, aos que lhe são próximos.

Nos dias mais difíceis e stressantes, escolhe a escrita como limpeza da alma: “É uma terapia, escrevo sobre o meu estado naquele momento, mas quando olho para aquilo é também uma forma de me libertar. Uma forma que também constrói e que desconstrói as minhas emoções. É a minha forma de apaziguar alguma tristeza que possa surgir.”

Outras das coisas que considera terapêutico é a sua horta, onde a lista de cultivo é bem vasta. Hortelã, erva-príncipe, alecrim, alfazema, louro, piri-piri, pimentos, tomates, morangos, cenouras, framboesas e para terminar o quadro em grande, um limoeiro. Contou-me que a avó Otília tinha um quintal, com uma figueira e uma nespereira, que a faziam sentir-se um Huckleberry Finn ou o Tom Sawyer, por todas as vezes que subia às suas copas. E foi isso que a levou a querer ter a sua hortinha, para ver crescer tudo aquilo que semeava e cuidada com a sua dedicação e amor.

Ver que o bocadinho que dás de ti faz alguma coisa nascer. Que tiveste impacto naquela coisa, uma ação minha fez com que uma coisa crescesse. E crescesse bonita.

Uma vez que o lema desta rubrica é “fazer pouco é melhor que nada” perguntei-lhe, para terminar esta nossa conversa, que sugestões daria a quem quer ter uma vida mais consciente e melhorar o seu impacto no mundo e na sua própria vida. Para além das ações já faladas, a preocupação com o plástico, com a água e o papel, relembrou-me também da importância de nos espreguiçarmos, não só de manhã, mas também durante o dia, principalmente para quem trabalha sempre na mesma postura, como a sentada. Que é importante fazer pausas, para respirar, apanhar ar e nos recentrarmos.

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Obrigada Joana, foi um prazer enorme poder conhecer todas estas tuas histórias!

♥ | Conheçam melhor a Joana aqui:

8 comments

  1. Que energia tão doce e serena!
    Já estou a adorar esta rubrica e adoro a sua missão de espelhar que “fazer pouco é melhor que nada”. Tenho de me lembrar disto mais vezes.
    A adorar este teu cantinho. Parabéns!

    Beijinhos para as duas*

    1. A Joana é mesmo uma índia serena <3
      Que bom que gostaste! São temas que eu gosto muito e que agora, com a idade, me fazem muito mais sentido e que quis trazer ao blog de uma forma leve e menos rígida, espero que o tenha conseguido!
      Muito obrigada por todo o carinho Lucie. <3
      Um grande beijinho

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Foi em Cascais que tive a primeira prova nacional em 2009. Foi em Cascais que embarquei numa aventura incrível, em 2012, onde cresci enquanto pessoa e como treinadora, durante os três anos que se tornaram a minha vida. E foi exatamente a Cascais que voltei, na primeira prova, depois de três anos fora da ginástica.
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A vida é muito sábia. Faz-nos sempre voltar a casa. ❤️
  • A pensar que quando lá voltar, tenho um punhado de visitas a fazer a Barcelona de 1945.
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🖤 Zafón, do meu coração.
  • Quem me conhece sabe que tenho um fraquinho para a palhaçada e que gosto de brincar e tentar ser cómica.
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Nem sempre consigo (ahah) mas é algo que gosto de explorar. Bem como fazer estas brincadeiras, estes trocadilhos, por vezes inteligentes.
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É como diz o outro: “Entendidos vão entender”!🙈😝📸
  • Aprender, treinar, treinar, melhorar.
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Não há forma de dizer isto, nem outra maneira de o fazer. Só com treino podemos melhorar as nossas capacidades.
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Ando a testar novas edições, novas ferramentas e a tentar trazer mais qualidade para as minhas fotografias.
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O caminho, faz-se caminhando. 👣
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(Deslizando:
1. Fotografia editada no Lightroom e finalizada no Photoshop; ➡️ 2. e 3. Detalhes: ➡️ 4. Arquivo RAW)
  • Às vezes andamos tão em baixo que, quando menos esperamos, cai-nos no colo mimos que só podemos agradecer com muita gratidão e aprender que a vida é mesmo assim, feita de fases.
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No início do mês recebi um convite para dar um workshop de fotografia. Foi a primeira vez que o fiz. Podia ter tido um medo tal que me fizesse recusar, mas aceitei-o com todo o entusiasmo do mundo.
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Foi uma experiência incrível e fiquei certa, de que quero voltar a repetí-la.
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Andei muito caladinha em relação a isto, porque queria que desse tudo certo. E deu! 🙏🏻
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 Hoje conto-vos tudo ao pormenor, no blog.
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