Esta Música dava uma História #1 – Petricor

esta-historia-dava.uma-musica

Este é o primeiro post desta nova rubrica mensal Esta Música dava uma História. Por aqui vão passar histórias inspiradas em músicas, músicas que tanto têm para contar, vidas vividas ao som de uma banda sonora que nunca se esquece. A melhor parte desta rubrica é que vai ser partilhada com quem gosto. As músicas da minha vida e da vida deles, as que nos marcaram, fizeram sorrir e chorar, vão passar aqui pelo blog. Já têm o som no máximo?

Curiosamente, a música com que vou abrir este post é capaz de não estar, diretamente, na lista de músicas da minha vida mas, merece ser a primeira por que foi ela que deu o mote e a ideia para criar este espaço. Só tenho um pedido a fazer-vos: coloquem a música enquanto estiverem a ler.

Petricor – Ludovico Einaudi

Esta música deve ter alguns dois anos quando entrou na minha vida. Não sei se já estaríamos no inverno mas sei que o dia amanheceu frio e cinzento como se estivesse solidário com a tua dor. Estava frio e a luz, que entrava pela janela do gabinete era pouca, para não se sentir toda aquela penumbra.

A chuva caía lá fora quando recebi o teu audio pelo whatsapp. Tudo estava em silêncio quando carreguei no play… silêncio… até que comecei a ouvir as primeiras notas. Pareciam as gotas de chuva a caírem, cada uma ao seu ritmo numa dança calculada, que trazia consigo um peso, um nó na garganta.

Imaginei o teu carro a avançar a alta velocidade pela autoestrada em direção ao lugar onde a tinhas visto pela última vez. O teu carro a deslizar pelo meio de extensos quilómetros de alcatrão desertos sob um céu cinzento escuro, o canto dos teus vidros embaciados e esta música a ecoar por toda a parte. Talvez fosses a recordar todos os momentos em que te lembravas dela ainda dona de todas as suas faculdades ou talvez, chorasses como eu sei que o fazias apenas quando estavas sozinho. Talvez fosses todo o caminho a sentir-te fora de ti num certo piloto automático.

A música avançava e os acordes intensificavam-se, como se fizessem coro à tua perda, como se fossem o teu conforto. E eu, tão longe do sítio onde estavas ouvia a mesma música que tu, vezes sem conta à sincronia da chuva, como se isso me pudesse deixar mais perto de ti, quase te sentir e não te deixar passar todo o sofrimento sozinho.

Queria ter podido, naquele exato momento, preencher a tua alma, o teu coração ou qualquer que fosse o espaço onde o vazio se tinha instalado. Transformar a tua dor em nada e privar-te naquele sentimento que sentimos quando perdemos alguém.

Só que a nossa condição aqui é essa e eu não sou senão igual a ti, humana. E não temos forma, nem nunca teremos de algum dia evitar a morte.

8 comments

  1. Eu fiz o que disseste, e coloquei a música. Para além de me teres feito apaixonar por ela, também me fizeste ficar com um nó no peito à medida que lia a história. Esta é a melhor rubrica no mundo da blogosfera. Conseguiste fazer com que as emoções do que se está a ler sejam intensificadas, unidas num crescendo uníssono das palavras e da música. Que combinação, estou rendida.

  2. Margarida,

    A perda de alguém faz-nos sempre querer dilatar para ocupar os espaços que ficaram viúvos, sem vida, sem cor…
    E sim esta humanidade que só nos dá uma certeza: que morremos todos os dias um bocadinho, e que todos os anos passamos o aniversário da nossa morte. Que faríamos se soubéssemos a hora e o dia exatos. Haveríamos de contrariar o medo e a preguiça que muitas vezes nos congelam? Esta música é muito bonita. Obrigada pela partilha.

    1. Querida Lúcia,

      Palavras bonitas para aquela que será sempre a maior dor que possam infligir ao ser humano. Se soubéssemos? Não sei, não sei aproveitaríamos mais ou faríamos tudo de forma melhor. Talvez tivéssemos maior consciência do impacto dos nossos actos, talvez fossemos melhores pessoas. Ou talvez não. Quem saberá? Obrigada pelo teu testemunho. Fico contente que tenhas gostado da música, ela é mesmo especial. Um beijinho querido

  3. sabes uma coisa? Sou uma grande fã de Ludovico Einaudi, há bastantes anos, oiço-o muito quando preciso de me focar e sinto que tudo flui muito mais facilmente quando o tenho junto aos ouvidos. Quando a este texto não há palavras que o descrevam, terminei com um aperto no coração e com muita saudade de uma pessoa que já não está na minha vida nem neste mundo há muitos anos. Obrigada por escreveres desta forma tão profunda e bonita. Gosto-te

    1. Não há nada mais gratificante do que fazer chegar às pessoas que nos lêem aquilo que realmente sentimos. Nem sei como agradecer este carinho todo e apoio. Teu. Quando cheguei a tua casa e vi a televisão com Ludovico pensei “ah, estou em casa”. E senti-o com todo o coração. um abraço apertado para fazer sair esse aperto do coração. Gosto de ti, muito!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

CommentLuv badge

Segue-me

  • Senão podes apanhar um avião para viajares, pega num livro e deixa-te levar.
.
Se és como eu e, nem sempre consegues manter uma rotina de leitura, porque não experimentas um desafio mensal?
.
Aqui ficam alguns em que podes participar:
• #umaduziadelivros da @ritadanova;
• @umlivrodebaixodaasa da @ascavalitasdovento;
• @hmbookgang da @helenaimagalhaes ;
• #thebibliophileclub da @asofiaworld • Livros à Sexta, do @armazemdeideiasilimitada 
Não há desculpas para não ler 📚
  • Dos meus 28 anos, vivi durante dois nesta rua. Não foi a minha segunda morada, antes disso ainda passei por outras paragens. No entanto, nenhuma me marcou como esta.
.
Acredito no destino, que não há coincidências e que a vida, nos espera onde fazemos falta.
.
Foi em Cascais que tive a primeira prova nacional em 2009. Foi em Cascais que embarquei numa aventura incrível, em 2012, onde cresci enquanto pessoa e como treinadora, durante os três anos que se tornaram a minha vida. E foi exatamente a Cascais que voltei, na primeira prova, depois de três anos fora da ginástica.
.
A vida é muito sábia. Faz-nos sempre voltar a casa. ❤️
  • A pensar que quando lá voltar, tenho um punhado de visitas a fazer a Barcelona de 1945.
.
🖤 Zafón, do meu coração.
  • Quem me conhece sabe que tenho um fraquinho para a palhaçada e que gosto de brincar e tentar ser cómica.
.
Nem sempre consigo (ahah) mas é algo que gosto de explorar. Bem como fazer estas brincadeiras, estes trocadilhos, por vezes inteligentes.
.
É como diz o outro: “Entendidos vão entender”!🙈😝📸
  • Aprender, treinar, treinar, melhorar.
.
Não há forma de dizer isto, nem outra maneira de o fazer. Só com treino podemos melhorar as nossas capacidades.
.
Ando a testar novas edições, novas ferramentas e a tentar trazer mais qualidade para as minhas fotografias.
.
O caminho, faz-se caminhando. 👣
.
(Deslizando:
1. Fotografia editada no Lightroom e finalizada no Photoshop; ➡️ 2. e 3. Detalhes: ➡️ 4. Arquivo RAW)
  • Às vezes andamos tão em baixo que, quando menos esperamos, cai-nos no colo mimos que só podemos agradecer com muita gratidão e aprender que a vida é mesmo assim, feita de fases.
.
No início do mês recebi um convite para dar um workshop de fotografia. Foi a primeira vez que o fiz. Podia ter tido um medo tal que me fizesse recusar, mas aceitei-o com todo o entusiasmo do mundo.
.
Foi uma experiência incrível e fiquei certa, de que quero voltar a repetí-la.
.
Andei muito caladinha em relação a isto, porque queria que desse tudo certo. E deu! 🙏🏻
.
 Hoje conto-vos tudo ao pormenor, no blog.
[link na bio]