Luz // Páginas Partilhadas

Não escrevia para o Páginas Partilhadas desde o o primeiro mês. Tem sido difícil encontrar um equilíbrio nesta nova fase de vida e ainda estou a aprender a gerir esta nova responsabilidade que depende tantas vezes só de mim. Mas este mês consegui organizar-me e espero contribuir mais vezes para este projeto tão querido.

[list style=”style6″] [li]Podem ler o meu primeiro texto para o Páginas Partilhadas aqui, sobre o tema “Arriscar”.[/li] [/list]

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LUZ | Dezembro

Escrever sobre Luz, poderia ter sido mais fácil, mas eu queria escrever sobretudo sobre mim, sobre algo que tivesse vivido na primeira pessoa. Hoje conto-vos algo que me aconteceu há uns anos e que nunca contei a muita gente e que por isso é tão marcante para mim.

♥ ♥

“Acordei para ir à casa de banho. Devia ser perto das 10h00 quando me levantei. Tinha adormecido tarde na noite anterior, porque tinha estado no ginásio até depois da hora normal e assim que cheguei a casa atirei-me para a cama, sem vontade de sequer jantar.

Levantei-me a cambalear, ainda ensonada, direito à casa de banho, com um olho aberto e o outro fechado. Segundos depois comecei a ver tudo branco. “Uma quebra de tensão”- pensei – “devo ter-me levantado muito depressa”. E o branco, tornou-se mais branco e mais branco e não regressava às cores que estava habituada.

Deixei de ver as coisas à minha volta, os azulejos azul-claro da casa de banho, a porta escura de madeira envernizada. Tudo estava branco.

O medo tomou-me de assalto o coração. Eu estava ali, sozinha em casa e não estava a ver nada, nem uma sombra, nem um reflexo. O desespero fez com que me dirigisse, aos tombos contra a mobília do corredor, até à porta de entrada, mas só me apercebi que lá tinha chegado, quando a cabeça embateu contra ela, com tal força que me deixou nauseada. Percorri-a com as mãos, sentindo as suas protuberâncias, os quadrados que eu sabia de cor de tanto os ver, até sentir o fresco do trinco. Puxei-o e, com o braço esquerdo esticado a tocar na parede rugosa da tinta de areia do prédio, caminhei em frente para pedir ajuda à minha vizinha. Andei uns metros, mas senti-me desorientada, perdida naquele espaço tão curto entre as duas portas. Não sabia onde estava. Resignei-me e deixei-me escorregar pela parede até ao chão ficando sentada, agarrada aos joelhos e assustada.

E tudo era luz. Para todos os lados que a minha cabeça virasse a única coisa que via era luz. Luz a entrar pelos meus olhos. Foram vários os pensamentos que me invadiram naquele momento, mas o mais aterrorizador era: “Estou cega”. Os segundos tornaram-se longos minutos – não consigo precisar ao certo quanto tempo fiquei ali, a sentir aquilo tudo.

Aos poucos, as coisas começaram a ganhar relevo. O branco tornou-se enevoado e os meus olhos começaram a reconhecer contornos e cores. Ainda hoje não sei o que se passou, mas acabei por fazer imensos exames que não indicaram nenhuma alteração e que mostraram estar aparentemente “tudo bem”.

Nunca me vou esquecer daquele dia em que a luz me inundou e tomou conta de mim. Normalmente é da sombra e das trevas que temos medo e fugimos, mas naquele momento eu percebi que nada na vida é assim tão linear. Nem todo o mal é efetivamente mau, nem tudo o que é considerado bom está a salvo de nos assustar.”

♥ ♥

Espero que tenham gostado e que aproveitem para conhecer este projeto.

Podem ler todas as participações no site do Páginas Partilhadas, bem como conhecer aos vários autores. Estamos também no Facebook e no Instagram, por isso passem por lá e sigam-nos nestas aventuras mensais de escrita.

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Foi em Cascais que tive a primeira prova nacional em 2009. Foi em Cascais que embarquei numa aventura incrível, em 2012, onde cresci enquanto pessoa e como treinadora, durante os três anos que se tornaram a minha vida. E foi exatamente a Cascais que voltei, na primeira prova, depois de três anos fora da ginástica.
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A vida é muito sábia. Faz-nos sempre voltar a casa. ❤️
  • A pensar que quando lá voltar, tenho um punhado de visitas a fazer a Barcelona de 1945.
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🖤 Zafón, do meu coração.
  • Quem me conhece sabe que tenho um fraquinho para a palhaçada e que gosto de brincar e tentar ser cómica.
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Nem sempre consigo (ahah) mas é algo que gosto de explorar. Bem como fazer estas brincadeiras, estes trocadilhos, por vezes inteligentes.
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É como diz o outro: “Entendidos vão entender”!🙈😝📸
  • Aprender, treinar, treinar, melhorar.
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Não há forma de dizer isto, nem outra maneira de o fazer. Só com treino podemos melhorar as nossas capacidades.
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Ando a testar novas edições, novas ferramentas e a tentar trazer mais qualidade para as minhas fotografias.
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O caminho, faz-se caminhando. 👣
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(Deslizando:
1. Fotografia editada no Lightroom e finalizada no Photoshop; ➡️ 2. e 3. Detalhes: ➡️ 4. Arquivo RAW)
  • Às vezes andamos tão em baixo que, quando menos esperamos, cai-nos no colo mimos que só podemos agradecer com muita gratidão e aprender que a vida é mesmo assim, feita de fases.
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No início do mês recebi um convite para dar um workshop de fotografia. Foi a primeira vez que o fiz. Podia ter tido um medo tal que me fizesse recusar, mas aceitei-o com todo o entusiasmo do mundo.
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Foi uma experiência incrível e fiquei certa, de que quero voltar a repetí-la.
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Andei muito caladinha em relação a isto, porque queria que desse tudo certo. E deu! 🙏🏻
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 Hoje conto-vos tudo ao pormenor, no blog.
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