O que aprendi em 72h sem Redes Sociais

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A ansiedade é algo que vive comigo há muito tempo, mas nem sempre dei por ela, o que acabou por fazer com que a menosprezasse praticamente a minha vida toda. Desde 2015, que a assumo como algo que pertence à minha personalidade, que consigo identificá-la como um bichinho que vive dentro de mim constantemente e não como um fenómeno esporádico, despoletado por um determinado acontecimento ou como resultado a alguma coisa nova.

Contudo, assumi-la nem sempre significa saber lidar com ela e por isso, desde outubro do ano passado, deparei-me com alguns episódios extremos resultantes deste condómino que por cá vive, sem se dignar sequer a pagar renda.

Numa dessas situações – que me obrigou a ter de chamar o INEM às 2h da manhã em plena A2 – decidi tomar algumas medidas para começar a tratar do assunto, antes que episódios como aqueles se voltassem a repetir. Uma dessas decisões recaiu sobre o meu afastamento das redes sociais.

72h sem redes sociais

Eu sabia bem que não eram elas as culpadas do meu mau estar (mas sim o burnout), só que a certa altura todas as notificaçõezinhas e bolinhas vermelhas, as constantes mensagens e toques de whatsapp me faziam tanta confusão, que me sentia obrigada a responder na hora e isso causava-me stress. Porque não me sentia em condições para o fazer e ao mesmo tempo, sentia que não estava a corresponder às pessoas que estavam do outro lado. Sempre tive esta obsessão por corresponder às expectativas dos outros, mas isso fica para outro post.

O que fiz a seguir, foi desinstalar todas as aplicações: o Facebook, o Messenger, o Whatsapp, o Instagram, até o Pinterest foi desta para melhor. Deixei apenas o e-mail, mas fiz questão de desativar a sincronização automática e não fosse o diabo tece-las, desliguei também os dados e o wi-fi. Nessa primeira noite, desliguei todos os alarmes, desliguei o próprio telemóvel, coloquei-o longe da cama e dormi. Talvez possam achar radical demais, mas eu conheço-me, se acordasse um bocadinho mais cedo teria a tentação de ligar o telemóvel para “fazer tempo”.

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As primeiras impressões

No dia seguinte, voltei a ligar o telemóvel e devo dizer-vos que foi um silêncio total. Deixei-o no quarto, com som (mas ainda sem as apps) e nem olhei para ele. Permiti-me fazer tudo aquilo que queria e não fazia há muito tempo, Vi televisão com olhos de ver, até encaixei dois filmes do homem-aranha (não sou grande fã de marvel) sem distrações. Li, li que me desunhei, completamente mergulhada na Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón, sem ter a tentação de espreitar se havia alguma mensagem ou chamada. Voltei a dormir e a sensação foi extremamente boa.

Ao segundo dia senti a necessidade – puro vício – de abrir o chrome. Atenção, “abrir o chrome”.. ninguém vai ao chrome só porque sim, isto era claramente uma tentativa de saciar o vício e é assustador perceber isso. As drogas tem todas os mesmo efeitos seja do que for que estivermos a falar. O importante é que fui adiando essa vontade e relembrando que, se o fizesse, me sentiria mais nervosa e que a sensação de não estar a cumprir me iria assolar novamente.

Lá mais para o fim do dia, atualizei o Gmail e fiquei satisfeita por ver que não havia nenhum e-mail de trabalho pendente, nenhum cliente a pedir qualquer coisa ou ninguém a passar mal com a minha ausência – sinceramente, ninguém quer saber (e isso não é assim tão mau quanto parece!).

De regresso à realidade

O 3º dia foi fácil, porque estive ocupada num workshop (como este que fiz aqui, com a Rita da Nova) que só me exigia papel e caneta, dedicação, concentração e todo o meu amor e energia naquele momento. E apesar de ter sido um workshop, toda a luz, relevância e propósito só me desacelerou o coração e me fez regressar às origens, o que me manteve sempre calma e presente.

Terminei o dia num jantar de ex-colegas do secundário, o que à partida podia parecer um mau momento para estar sem redes sociais. Aquele típica foto de reencontro ou aquele boomerang da moda foi substituído por um “Ah, não consigo que estou sem redes” e não houve mal nenhum ao mundo, ninguém quis saber o porquê, nem me olhou como se fosse uma extraterreste. Senti-me até, mais conectada comigo e com as pessoas à minha volta, que já não via há anos e o telemóvel, esse ficou a noite toda perdido dentro da minha mala.

Spoiler Alert: O mundo não acaba!

Após 72h sem redes sociais, voltei a ligar o wi-fi, a sincronizar o e-mail, a instalar as aplicações e a fazer log-on, e sabem que mais? Estava tudo no mesmo sítio!

Ok, com mais atualizações, com mais fotos e mais emojis, mas estava tudo na mesma. O mundo não tinha acabado, o trabalho continuava lá à minha espera sem ninguém estar enfurecido com isso. Haviam algumas mensagens de Whastapp para responder (poucas), mas o meu telemóvel esteve sempre ligado e nunca, nunca tocou. Ninguém precisou de mandar mensagem à antiga, de ligar para saber se eu estava bem ou para resolver este e aquele assunto, ninguém deu por falta e está tudo bem com isso.

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Foram 72h, mas quem sabe noutra altura sejam mais. Sinto que preciso cada vez mais destas ausências e desta conexão prioritária comigo, dos meus livros, da minha escrita e até das intermináveis horas de sono. Foi mesmo uma experiência reveladora e ajudou-me a perceber o que fazer, quando me sinto mais ansiosa.

O que importa se deixarmos de existir no online? Ninguém vai dar por falta. E quem der, vai saber que o telemóvel ainda tem aquela funcionalidade – esquisita – de ligar e ouvir a voz da pessoa do outro lado. Isso é o mais importante!

 

♥ | Todas as fotografias utilizadas neste artigo foram retiradas de Unsplash.com

6 comments

  1. Ah… ainda vou a tempo de fazer o mesmo? Sempre quis desligar-me do mundo assim, talvez no verão o faça. E a propósito, qual o melhor livro para nos perdermos senão A Sombra do Vento? (Já ando com o resto da saga de Zafon debaixo de olho!)

    Um beijinho, Joana ♥

    1. Vais sempre a tempo de fazer o melhor por ti Joana ♥
      A Sombra do Vento é um dos meus livros da vida, já li mais um do Záfon (O Jogo do Anjo), mas apesar de ser muito giro – visto que se passa na mesma Barcelona e tem algumas referências às personagens ou lugares da Sombra do Vento – não me encantou tanto. Mas já me recomendaram ler toda a saga, por ordem de lançamento ou cronológica 😀
      Beijinho

  2. Num mundo onde tudo anda cada vez mais depressa, por vezes temos de ser nós mesmos a abrandar e das melhores maneiras para o fazer é sem duvida desconectar para…conectar 🙂 Claro que agora com todo o nosso projecto e as viagens é difícil passar tanto tempo sem estar ligado a rede, mas vamos tendo os nossos métodos de manter o equilíbrio entre corpo, mente e espírito!
    Parabéns pelo blog, está fantástico!
    Beijinhos

    Patricia & Miguel
    http://www.freeoversea.com

    1. Olá queridos!

      Concordo completamente, é muito fácil deixarmos-nos levar pela toxicidade nesta era de tecnologia ao segundo. Às vezes é exacerbante ter este estímulo constantemente, por isso também concordo que é importante desligar para nos voltarmos a conectar connosco! O importante é aprender a viver em equilibrio nos dois lados. Obrigada pelo tempo que depositaram em mim e muitos parabéns pelo vosso projecto também, tenho a certeza que vai crescer e inspirar muitas pessoas. Já o fazem comigo! Obrigada.

      Um grande beijinho

  3. Essas ausências são tão necessárias como as presenças. É uma ausência perante o digital e o online, mas uma presença contigo mesma e isso vale tudo na vida! Quando houver jantar lá em casa, vamos deixar os telemóveis todos numa gaveta, à porta, como faço com os sapatos! Quero que entres, apenas tu e a tua maquina fotográfica claro, que essa claro não tem notificações chatas e bolinhas vermelhas de alertas, apenas o teu disparar para mais tarde recordar.
    Um beijo grande de quem te adora 🙂

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É como diz o outro: “Entendidos vão entender”!🙈😝📸
  • Aprender, treinar, treinar, melhorar.
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Não há forma de dizer isto, nem outra maneira de o fazer. Só com treino podemos melhorar as nossas capacidades.
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Ando a testar novas edições, novas ferramentas e a tentar trazer mais qualidade para as minhas fotografias.
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O caminho, faz-se caminhando. 👣
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(Deslizando:
1. Fotografia editada no Lightroom e finalizada no Photoshop; ➡️ 2. e 3. Detalhes: ➡️ 4. Arquivo RAW)
  • Às vezes andamos tão em baixo que, quando menos esperamos, cai-nos no colo mimos que só podemos agradecer com muita gratidão e aprender que a vida é mesmo assim, feita de fases.
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No início do mês recebi um convite para dar um workshop de fotografia. Foi a primeira vez que o fiz. Podia ter tido um medo tal que me fizesse recusar, mas aceitei-o com todo o entusiasmo do mundo.
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Foi uma experiência incrível e fiquei certa, de que quero voltar a repetí-la.
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Andei muito caladinha em relação a isto, porque queria que desse tudo certo. E deu! 🙏🏻
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 Hoje conto-vos tudo ao pormenor, no blog.
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