“A última carta para ti”

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credits by brooke cagle | via unsplash

“Voltei a ler todas as coisas que te escrevi, na altura em que nos separámos. Se sempre me senti meio ridícula quando o fazia, hoje senti sinceridade e compreensão, como se de alguma forma, toda a dor exposta fosse justificada. Lembro-me que, quando ainda partilhávamos diariamente os mesmos metros quadrados, te escrevi uma carta de três páginas, a caneta de cor verde alface e a coloquei num saco junto com a sweatshirt que me tinhas emprestado e a tua escova de dentes. Coloquei também o carro em miniatura, que te trouxe daquela viagem e que sabia que eras fã.

Não me recordo do que escrevi nessa carta, mas sei que o fiz com serenidade, objetividade e também compaixão. Quase como estendendo a toalha ao chão, num misto de conformismo e misericórdia para contigo. Passaram-se cinco anos, cinco! E, quando me lembro de ti, quando falo de ti mais do que dez minutos, a minha postura e discurso acabam por se abalar, a segurança e distância dão lugar à saudade e ao entusiasmo absurdo, de uma possível fagulha de esperança. A possibilidade de me poder cruzar contigo na rua inquieta-me, deixa-me remexida.

Tento perceber o que sinto, o que foi isto que nos aconteceu e, se o que senti foi real ou apenas uma espécie de alucinação. Não sei responder, porque quando regresso à memória daqueles dias, tudo me parece tão real. Tudo era real. O teu sorriso infantil, o brilho apaixonado dos olhos, as macacadas que fazíamos no sofá, a brincar um com o outro. A forma como me abraçavas e me fazias sentir que o mundo pertencia a nós os dois. Eramos cúmplices como Bonnie & Clyde, parceiros de crime. Talvez essa cumplicidade durasse apenas os segundos do tempo em que nos reuníamos em minha casa, quando falávamos do futuro, quando falávamos de nós. Naquele momento era muito real para mim e, também para mim, significava o mundo. É difícil conseguir distinguir os sentimentos, como se estivesse tão cega a ponto de não poder fazer um juízo justo daqueles tempos. Se fui eu que exacerbei as coisas ou se ambos, perdíamos o controlo e a sensatez, quando nos deixávamos cair nos braços um do outro. Talvez precisássemos de alguém que nos fizesse sentir a pessoa mais importante do mundo.

Tenho a certeza que fui a tua maior fã, mas não duvido que isso, também te tenha desgastado. Sempre fui evasiva e ciumenta, tratei-te muitas vezes como um miúdo, como se tivesse alguma responsabilidade sobre ti, sufoquei-te. Tu, por tua vez, deixaste-me sozinha, abandonaste-me de um dia para o outro, sem qualquer desculpa. Fiquei sempre sem saber o porquê. Mesmo quando voltamos a falar, quase um ano depois, não percebi. Ainda não percebo. Não quiseste fechar uma porta, mas tê-la aberta também não era opção.

Vieste todas as vezes que quiseste e, em todas elas, amámo-nos como se o tivéssemos feito no dia anterior. Vivi muito tempo naquela casa – que tornei tua – à tua espera. Simplesmente à espera que talvez fosses aparecer ou quisesses estar comigo. Lembro-me de todas as vezes que o fizeste e, em todas elas, senti-me sempre a mulher mais feliz do mundo. Passaram-se cinco anos, três desde a última vez que te vi, que te toquei e que entraste por aquela porta. Já não me recordo do teu cheiro, a tua voz já se sumiu, mas a imagem permanece, mesmo que entretanto tenhamos mudado tanto. Acho que te reconheceria o toque como se nunca tivesses partido. E queria saber se o meu coração se agitaria de novo, se te voltasse a encontrar. Talvez não – é uma espécie de desejo consciente – mas sei a resposta.

Queria dizer-te que desde então, mudei muito, que a minha vida mudou e que já não sou a mesma pessoa daquela altura. Queria dizer-te, no entanto, que a minha vida não voltou a ser como era antes de te conhecer. Tu mudaste tudo em mim. Nunca mais me voltei a apaixonar como me apaixonei por ti, nunca mais me voltei a dar a ninguém como o fiz contigo, muito embora sabendo que me ofereceram, muito mais do que tu, alguma vez o fizeste.

É como se estivesse sob um manto de maldição, estilo contos de fadas da Disney e isso, por vezes, assombra-me. Queria que ele se quebrasse, que alguém fosse capaz de desfazer o feitiço, mas outras vezes, assusta-me terminar com este amor onde depositei tanto tempo e dedicação. Assusta-me perder-te, como se ainda te tivesse, como se o que sinto por ti me alimentasse. Como se ainda houvesse uma réstia de esperança. Tenho medo de não saber viver sem ti, muito embora, já não te tenha.

Tenho medo de não saber viver sem esta máquina que te liga à minha vida, que te mantém a respirar. Não sei, se sei quem sou, sem ela.

Empenhei-me tanto em ser “aquela que te amou para toda a vida”, numa idealização de amor eterno do cinema, que a hipótese de deixar de o ser, perturba-me. Há dias em que sinto a tua falta e que isso, me tira o sono. Gostava de ser feliz com alguém, de voltar a amar, com a serenidade que nunca tive, como o amor merece ser. E não me permito, porque te escolho sempre a ti. E ainda, não me sinto preparada para deixar de o fazer. É como se isso significasse voltar a chorar, a sofrer, a fazer o luto de novo. Como se o meu corpo escolhesse sempre agarrar-se à doença, em vez de se manter saudável. Como se te escolhesse sempre, a ti.

Amar-te para sempre foi a missão que escolhi para mim. Bem sei, que nunca mo pediste, mas foi até ao momento, aquela que melhor soube desempenhar.”

♥ | Ver Também: “Itália, 1978”

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Ando a testar novas edições, novas ferramentas e a tentar trazer mais qualidade para as minhas fotografias.
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O caminho, faz-se caminhando. 👣
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  • Às vezes andamos tão em baixo que, quando menos esperamos, cai-nos no colo mimos que só podemos agradecer com muita gratidão e aprender que a vida é mesmo assim, feita de fases.
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No início do mês recebi um convite para dar um workshop de fotografia. Foi a primeira vez que o fiz. Podia ter tido um medo tal que me fizesse recusar, mas aceitei-o com todo o entusiasmo do mundo.
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Foi uma experiência incrível e fiquei certa, de que quero voltar a repetí-la.
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Andei muito caladinha em relação a isto, porque queria que desse tudo certo. E deu! 🙏🏻
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 Hoje conto-vos tudo ao pormenor, no blog.
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