“Itália, 1978” | Um exercício de escrita criativa que virou o início de uma história

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Já vos falei aqui sobre os workshops de escrita criativa que a querida Rita da Nova dá, não já?
Pois é, sinto que estou a precisar de fazer outro.
Tenho andado menos criativa no que toca à escrita, uma vez que tenho virado quase todas a minhas forças e atenções para a fotografia e é normal andar-me a sentir menos produtiva nessa área.

Para me inspirar, lembrei-me de ir buscar um dos exercícios que fiz no primeiro workshop de escrita criativa com a Rita, dar-lhe asas à imaginação, inserir-lhe um pouco mais de alma e um xiripiti de mistério.

Podem ler aqui em baixo o resultado.

♥♥♥

Itália, 1978

Laura encontrava-se no varandim do seu atelier a trabalhar há já cinco horas, sem qualquer pausa. Mal tinha parado para ir à casa de banho. A pressão para aquela que seria, a sua primeira exposição, tornava-se cada vez mais real e obrigara-a a pintar durante horas e horas. O calor crepitava-se. Eram três da tarde e o sol estava a pique. Não se via nem uma alma na rua, apenas a brisa quente passeava por entre as pitorescas casas da Via Capello.

A semana tinha sido dura com Laura, que vira o seu noivado de 3 anos terminado, de um momento para o outro, quando descobrira que Francesco a traía com uma das suas melhores amigas. Não tinha chorado, não tinha sido consumida pela raiva, tinha apenas se limitado a bater com a porta do quarto, da casa de ambos onde, após um regresso mais cedo de uma viagem, os tinha surpreendido na sua cama. Agarrou num saco, onde colocou algumas roupas e livros, indiferente aos pedidos de desculpa e de arrependimento dos dois e saiu. Fechou-se no atelier, descarregando toda a sua dor naquilo que melhor sabia fazer, pintar. Os dias seguintes tinham sido passados ali, entre as telas e as tintas, alguns copos de vinho tinto espalhados pelo andar e embalagens de comida congelada, que comprava nas escassas saídas que fazia, só para se abastecer. Tinha dado ordem ao porteiro que não a incomodasse, nem deixasse ninguém subir. Queria estar sozinha.

Saiu pelas quatro da tarde, direita à mercearia mais próxima quando, uns metros mais à frente sentiu uma sensação estranha, como se estivesse a ser observada, mas não havia ninguém debaixo daquele calor a não ser ela. A rua estava deserta. “Talvez precisas de te alimentar, estás a começar a ver coisas”, pensou para si própria, deixando escapar um sorriso. Um sorriso amarelo e magoado, que não deixava esconder a grandeza do seu sofrimento.

Já de volta ao atelier, sentou-se no sofá a petiscar um gorgonzola e abriu um dos livros que tinha trazido consigo na noite fatídica e começou a ler até se deixar render ao cansaço. O corpo estava exausto, mas nem por um momento a mente lhe deu tréguas. Sonhou a noite inteira com aquele cenário, com o homem com o qual ia casar dali a quatro meses a traí-la à sua frente. Como se pertencesse a uma seita e fosse obrigada a assistir, ao envolvimento do seu futuro marido com outras mulheres, um macabro espetáculo pertencente a um ritual pré-nupcial. Foi quando a sensação de náusea a ia atacar, que a campainha tocou e a fez despertar com um grito. Olhou para o relógio, sobressaltada ainda com o sonho que acabara de ter, eram 3h40, de madrugada ainda e achava ter imaginado aquele som, quando a campainha voltou a tocar.

Assustada por ser tão tarde e ainda meio atordoada do sono, sentiu o coração acelerar-se ao ritmo de um comboio. O Sr. Xavier, o porteiro, já teria com toda a certeza deixado o seu posto de trabalho e não imaginava que Francesco pudesse ter tido o descaramento de a ir procurar àquelas horas, depois de tudo. Desceu as escadas da mezanine, encostou-se à porta e espreitou pelo visor. Estava escuro e por isso não conseguia identificar quem estava do outro lado, mas parecia-lhe ser um homem. A campainha voltou a ouvir-se, pela terceira vez.

– Quem é? Já viu bem que horas são?
– Desculpa, é a Sra. Laura Capetti?
– Sim, sou eu.. – respondeu do outro lado da porta, desconfiada.
– Peço imensa desculpa por estar a incomodá-la a esta hora, mas preciso muito de falar consigo. É um assunto urgente. Seria possível abrir a porta?
– Quem é o senhor? E porque é que precisa falar comigo? – perguntou intrigada e meio rabugenta.
– O meu nome é Joseph Oswaldo, preciso de falar consigo sobre o seu avô, o Sr. Santiago Capetti!
– O meu avô morreu há mais de 10 anos, mal o conhecia. É melhor ir-se embora!
– Por favor menina Laura, tenho uma mensagem dele para si! É importante!
A resposta surgiu num silêncio que pareceu durar minutos.
Pouco depois ouviu-me o som da fechadura rodar, desbloqueando os trincos.
E a porta abriu-se…

♥♥♥

Ficaram curiosos? E que tal, se continuassem a escrever esta história? O que aconteceria quando Laura abrisse a porta? Contem-me tudo!

2 comments

  1. E do nada, chamei-te nomes. Então mas isto faz-se?
    Estavas a ir tão bem, tão envolvente, tão cativante, com uma escrita a fluir mais e melhor a cada frase. A agarrar-me a uma história. E agora deixas-me ficar sem saber o que Joseph quer de Laura, às 3h40 da manhã.

    Imaginei um Joseph mal vestido, magro, cansado e obviamente sem relógio. Sem dar conta das horas que lhe passavam pelas mãos enrugadas, reflexos de uma vida que se revelava agora meio perdida, triste e sem rumo. Um Joseph de pele queimada pelo sol e sem norte, sem caminho, sem muito mais para fazer que não fosse contar-lhe aquela velha história sobre o seu avô. Como se só se aguentasse por causa disso. Por causa daquela velha promessa.

    Não me dizes agora qual é?

    Beijinhos

    1. Opa Andreia (bonequinho com as mãos nos olhos)!
      Desculpa ter-te deixado assim, à toa. Mas adorei conhecer esse Joseph pela tua imaginação, certamente diferente do meu, mas com um objetivo comum: cumprir a promessa que o avô de Laura fez.

      Aí, gostei mesmo desta história partilhada. <3
      A promessa, terás tu de imaginar, é essa a chave.
      Beijinhos

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Segue-me

  • Tenho saudades de levantar voo. Do friozinho na barriga quando sentes aquele ímpeto em direcção ao céu.
Pertenco a todos os lugares onde nunca fui e me esperam. E a todos aqueles onde deixei um pouco de mim.

Para onde vou agora?
// postcard from Geneve, 2015.
  • Não é o #10yearschallenge mas a diferença é de apenas um ano.

Em agosto de 2010, rumei a Cabo Verde com o grupo de escuteiros em que me incluía.
Já nesta altura a máquina fotografica me acompanhava.

Comecei a tomar mais gosto e a desejar ter esta princesa, quando o Rui, meu colega de grupo, começou a levar a dele para os acampamentos e atividades. Os meus olhos brilhavam sempre que pegava na máquina fotográfica dele e desatava a disparar cliques aqui e ali. Ainda sem grande noção do que fazia, sem grande intenção, mas extremamente apaixonada.

Depois de Cabo Verde, andamos por Londres, Barcelona, Antuérpia, Bruxelas, Paris, Genebra e tantas outras cidades do País, sempre juntas.

Tenho a minha 77D há menos de um ano. Fizemos a primeira viagem até Madrid e já só sonho com novas aventuras por aí fora.
Se há coisa que gostava, era de viajar pelo mundo para o fotografar.

Também tens um sonho, daqueles incríveis? 📸 @ruipperes
  • "Gostaria de crer que isto é uma história que estou a contar. Preciso de crê-lo. Tenho de crê-lo. Aquelas que conseguem acreditar que semelhantes histórias são apenas histórias, têm melhores possibilidades.
Se é uma história que estou a contar, então posso controlar o fim. Então haverá um fim, para a história, e a vida real virá depois. Posso retomar o fio onde me interrompi."
.
📚 // ainda não cheguei a meio desta história e ja me embrulhou o estômago várias vezes.
.
Assusta-me pensar que, talvez não tenha sido há tanto tempo assim uma realidade semelhante ou que, a distância futura não me pareça tão descabida.
.
É aterrozizador pensar nisto, mas quando olho o mundo a cru vejo a loucura insana e o desrespeito constante pelo outro.
. 
É uma história perturbadora mas é também um agitador de águas. Que tenhamos a lucidez necessária para reconhecer todos os sinais!
.
➸ para janeiro em #umaduziadelivros: Crónica de Uma Serva, de Margaret Atwood
  • Mais 365 novos dias para fazermos o que nos faz feliz.

Estou a aproveitar esta semana para preparar o ano, que não consegui deixar tudo pontinho antes do final do ano. É mesmo assim, fazer e refazer. 🙈

Estou a aproveitar as dicas que a @filipammaia deixou num dos seus videos do YouTube e a construir - passito a passito 💃 - o planeamento para os próximos 6 meses. Dá tantooooo jeito, mesmo para quem não tem um negócio, é interessante pensar naquelas questões todas ⇛ Ide lá ver 🙌🏼 // Quem reparou que temos um visual diferente por aqui?
É verdade, este refresh vem acompanhar o blog que também tem cara lavada, para ver já amanhã! 🤗

Aos inícios! 🥂
#mpestanaphoto
📷 @anapestana_
#tribejldesign
  • ⟴ DIVERSÃO // Foi esta a palavra que escolhi para me acompanhar no ano de 2019.
Se o ano que passou foi muito dedicado ao trabalho e à descoberta de mim mesma neste aspecto, agora é tempo de relaxar um bocadinho e curtir.

Falta-me isso. Falta-me rir até doer a barriga, fazer coisas meio malucas e aproveitar. Não quero muito, não existem muitas resoluções a não ser, divertir-me. Curtir tudo o que vier. Equilibrar o Yin-yang e priorizar ser feliz, seja lá como for.

Que o vosso ano, seja também repleto de diverso.
💃🎉
#mpestanaphoto
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Se o ano que passou foi muito dedicado ao trabalho e à descoberta de mim mesma neste aspecto, agora é tempo de relaxar um bocadinho e curtir.

Falta-me isso. Falta-me rir até doer a barriga, fazer coisas meio malucas e aproveitar. Não quero muito, não existem muitas resoluções a não ser, divertir-me. Curtir tudo o que vier. Equilibrar o Yin-yang e priorizar ser feliz, seja lá como for.

Que o vosso ano, seja também repleto de diverso.
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