Quero Ser Fotógrafo #3 Os Maiores Medos na Fotografia [ c/ Fotógrafos Convidados]

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Ando há tempos a pensar em escrever este artigo, porque é um tema que está sempre presente, seja em qual for o patamar em que estou no meu negócio, enquanto fotógrafa. Há sempre um medo que aparece para me deixar insegura e me fazer acreditar que não sou capaz.

Quando nos estamos a lançar numa nova carreira então, isto é mesmo muito frequente! Questionamo-nos a toda a hora se somos realmente capazes, se algum dia chegaremos perto daqueles que são a nossa referência e se conseguiremos fotografar assim ou se alguém nos vai levar a sério e comprar os nossos serviços.

Por isso, vou falar-vos de alguns dos meus maiores medos na fotografia e, para isto ficar mesmo bom, convidei cinco fotógrafos que admiro imensoa Márcia Soares, o Gonçalo Nabais, a Joana Bryant, o Bruno Lé e a Joana Meneses – que alinharam fazer esta partilha comigo.

Antes de mais um enorme obrigada a todos eles, por terem alinhado logo a falarem desta, tão importante e sensível, questão do medo no processo deles. É um prazer – do caraças! – ter-vos aqui!

[Podem encontrar todos os seus contactos no final da sua intervenção.]

O medo de não ser capaz por não ter experiência suficiente…

Esta era uma das minhas frases mais populares – às vezes ainda é – fosse a que nível fosse. Há uns tempos pediram-me um orçamento para fotografar um batizado (com tudo o que tinha direito) e o meu medo, que quase me levou a declinar esse trabalho, foi o facto de ter de fotografar numa igreja – com fraca luz natural – e não ter qualquer experiência, o receio de perder momentos únicos que não se pode pedir que repitam. “E se as fotografias ficassem péssimas? Escuras e não as conseguisse recuperar? E se estivesse tão focada naquele medo que começasse a bloquear?”

O medo de não estar à altura do desafio por não ter um bom equipamento…

Durante muito tempo, sempre que alguém me propunha algum trabalho sentia um misto entre excitação máxima e um terror profundo. Por um lado, ficava super entusiasmada com o desafio e pelo facto de terem pensado em mim para o desempenhar, mas logo a seguir, vinha o terror avisar-me de que, não devia ficar tão contente porque não tinha uma máquina XPTO de fotógrafo e por isso, o resultado não estaria à altura daquilo que considerava ser um bom desempenho.

O medo de cobrar pelo meu trabalho…

Ainda a semana passada conversava com uma rapariga que se está a iniciar enquanto fotógrafa e me contava que estava muito perdida e sem saber que valor cobrar, num pedido de orçamento que lhe tinham feito, para uma sessão. A primeira resposta dela foi dizer que não cobrava porque não tinha experiência, porque nunca o tinha feito. Foi exatamente assim que comecei com as minhas sessões – na altura, ainda sem saber que isso me traria a fotografia como profissão. Mas a verdade é que, ao fazermos isso, podemos estar a cometer um erro irreparável. Não quero ser dramática, mas há algumas questões que devemos ter em conta quando decidimos não cobrar por um trabalho:

  1. Estamos a desrespeitar o nosso trabalho: Falta de experiência, não significa nunca, falta de dedicação, de esforço, de estudo e de horas de trabalho. Por isso, é esse peso que devemos por na balança quando pensamos nos valores para os nossos serviços, mesmo que seja pela primeira vez.
  2. Estamos a desrespeitar os nossos colegas de profissão: É importante que pensemos que pertencemos a uma comunidade ou que começamos a querer pertencer a ela e, por isso, temos de pensar global e com sentido de justiça e respeito a essa mesma comunidade. Se todos nós nos valorizarmos corretamente, vamos estar a valorizar todos os outros colegas fotógrafos, não promovendo a concorrência injusta e desleal.

Isto, não quer dizer que eu não faça alguns trabalhos gratuitos. Faço sim! Durante o meu ano, estabeleço uma “cota parte” do meu tempo e orçamento para aquele trabalho que considero “solidário”, onde contribuo para algum projeto que gosto, com que me identifico e que sinto que faço a diferença – por exemplo, este ano vou estar a fotografar o Blogging For a Cause, com a Raquel Ponte.

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Já conhecem o meu instagram-portfolio?

O medo de não ser criativo e disruptivo…

Para o Gonçalo Nabais, um dos seus maiores medos é não conseguir ser criativo e disruptivo ao ponto, de se destacar das suas referências.

Gonçalo – “A inspiração fotográfica está, mais que nunca, ao alcance de quase todos. Milhares de imagens são partilhadas diariamente em sites como instagram ou facebook, portanto é natural que qualquer ideia que julgamos ser diferente, já tenha sido feita em algum outro momento. “

“O medo que alguém pense “esta é gira, mas a do X é melhor” estará sempre presente, mas é também esse receio que me move na constante direção de criar algo novo, nunca antes visto.”

Por isso, ele acredita que não devemos ter medo de imitar ninguém, aliás até o devemos fazer descaradamente.

Gonçalo – “Faz parte do processo de evolução. Se for preciso, contacta a pessoa que criou essa imagem em primeiro lugar. Partilha os teus receios. Já todos tivemos nesse lugar, não levamos a mal. Se for um fotógrafo humilde, responder-te-á e ajudar-te-á. Diz-lhe que adoraste o trabalho e que a vais reproduzir. A imitação é a melhor forma de elogiar. E 90% das vezes vamos com a ideia de imitar uma imagem, mas as circunstâncias acabam por gerar algo único e só nosso. Basta aceitar que vamos seguir aquela ideia em particular e tudo acaba por correr a nosso favor.”

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via instagram @iamgnabais

Instagram | Facebook | g-nabais@hotmail.com

O medo do contacto com as pessoas e de não ser bom o suficiente…

Revejo-me imenso nos medos do Bruno Lé. Quando comecei a fazer retrato mais a sério, ficava tão nervosa com a interação com as pessoas., não as sabia dirigir e por vezes, sentia o ambiente tão tenso, que não me conseguia descontrair – como vos contei aqui, o diálogo com a pessoas que está à nossa frente é essencial.

Bruno – “A melhor maneira de enfrentar um medo, é passar por ele. Sempre fui muito tímido e isso prejudicava-me, pois sempre quis fotografar pessoas. Foi num estágio num jornal (Diários As Beiras, em Coimbra) na vertente de fotojornalismo, que me vi “obrigado” a ir para cima das pessoas para ter a foto daquele momento importante, que sairia no jornal no dia a seguir. Ou seja, se continuasse com a timidez e o medo, muitas vezes deixava o momento acontecer sem o conseguir registar.”

“Isso aplica-se em tudo o resto. Muitas vezes temos uma ideia, uma foto que queremos muito fazer, mas não sabemos bem como. O que fazer? Experimentar! Chama um/a amigo/a, um casal, ou simplesmente vai ao sítio que queres fotografar e fotografa!”

Costumo dizer que, o caminho faz-se caminhando ou como o Bruno diz: “É a fotografar que se aprende e agora quanto mais fotografo, mais quero fotografar.” Não podia estar mais de acordo!

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via instagram @brunolephotography

Instagram | Facebook | info@brunole.com

O medo de não criar conteúdo com propósito ou de perder oportunidades…

Acho super interessante os medos e assuntos que a Márcia Soares partilhou comigo e que agora vou partilhar convosco, porque me relaciono muito com a visão dela.

Márcia – “Comecei a minha jornada neste mundo da fotografia há cerca de 3 anos. Fui para a faculdade, tirar Arte Multimédia, e não sabia muito bem o que queria fazer, mas tinha a certeza de que tinha de ser na área da fotografia. Entretanto ia fotografando amigos meus por brincadeira, até que em 2015 surgiu a oportunidade de ir ao Moda Lisboa, e foi aí que se fez o “click” e que soube que era naquele género de fotografia que me queria focar: retrato e moda.

Comecei a fotografar bloggers e pessoas que achava que tinham um perfil interessante no instagram, até surgir o meu primeiro trabalho remunerado, e com ele veio o medo de errar, de não fazer bem o trabalho, de não ter os conhecimentos necessários, era algo que me atormentava, mas isso felizmente acabou por passar quando consegui ultrapassar o medo ao fazer o trabalho, e muitos mais foram surgindo.

Mais tarde – durante o programa Erasmus +, onde estive em Inglaterra – comecei a estudar muito mais a própria fotografia e tudo o que está por detrás dela, e veio uma enorme vontade de criar não só “porque sim, mas sim com um propósito, com base em algo que me inspirasse e que tivesse alguma mensagem.”

Foi a partir dessa altura que os medos da Márcia se tornaram mais complexos e em que as suas preocupações começaram a ser mais viradas para a intenção do conteúdo que produzia, o receio de não criar conteúdo bom o suficiente e/ou de criar pouco conteúdo.

“Nesta área sinto que, em cada momento que não criamos nada, estamos de certo modo a perder alguma oportunidade, e sinto que nós artistas e fotógrafos temos de estar em constante produção de novas ideias e conceitos, para não cairmos no “esquecimento”.

O mais importante, considera ser criar para nós próprios e não apenas para os outros. Porque é com ess arte que devemos encher a nossa alma e coração, de coisas boas.

Márcia – “No final do dia, o mais importante é que se sintam bem com que criam, façam o que vos faz sentir bem e felizes, e se não correr bem, tentam mais uma vez!”

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via instagram @marciasview

Instagram | Behance | marciasview12@gmail.com

O medo de não ter uma identidade própria…

O maior medo da Joana Bryant, vem ao encontro do que o Gonçalo dizia. São tantas as possibilidades e as referências que surgem que, por vezes, receamos não nos destacarmos. Estou com eles, nesta questão, porque acredito que todos os fotógrafos querem encontrar a sua própria identidade artística e querem ser reconhecidos desta forma.

Quem não almeja que as suas fotografias sejam facilmente identificadas apenas por um olhar? Sobre a Joana – que já falei neste post, sobre a qualidade do seu trabalho – posso dizer que está a fazer um excelente trabalho neste campo. Apesar de saber que ela quer explorar outras vias artísticas da fotografia, é daquelas que, quando vejo um trabalho, consigo reconhecer o seu olhar e registo, mesmo sem estar identificada.

Mas como procurar esta identidade, como encontrar este registo?

“Para. Vê o que queres fazer, que história queres contar. Fala com pessoas que te inspiram, visita museus… parece parvo mas a verdade é que coisas que estão fora da tua zona de conforto trazem novas ideias. Tens tempo, para o tempo que precisares.” – Joana Bryant

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via instagram @joanabryant

Instagram | Site

O medo de não agradar os clientes…

Para a Joana Meneses, o maior medo é sentir que o seu trabalho não está à altura das expectativas dos seus clientes.

Joana – “Desde que comecei a fotografar e a investir em fotografia, penso que o meu maior medo foram (e são) os meus clientes. Tenho sempre receio de que não gostem do resultado final. Acho sempre (mas sempre mesmo!) que poderia ter feito mais e melhor em todos os meus trabalhos… E isso ajuda-me a evoluir imenso. Às vezes ate irrita, mas sempre que acabo uma sessão, ou sempre que termino um evento penso que devia ter feito isto ou aquilo, que me esqueci de alguma coisa, que não tenho fotos de jeito, mas depois começo a editar e percebo que estava errada e, felizmente, tenho tido sempre feedback positivo.”

“Medos vamos ter sempre. Medos e dúvidas. Faz parte enquanto artista e ser humano. O importante é ir contra esses medos e nunca deixar que eles nos parem. Eu acredito que as melhores coisas da vida acontecem quando sentimos este “medo”.

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via instagram @joanameneses.photos

Instagram | Site | Tropeço de Riso Fotografia

♥ | Reveste-te em alguns destes medos? O importante aqui é mesmo compreenderes que é normal e que vai haver sempre algum receio a acompanhar-te, estejas tu no início do caminho ou já em “grandes palcos”. Costumo dizer que há sempre alguém à tua frente e atrás de ti e isso é bom, porque vais estar sempre a crescer e a desafiar-te, bem como a seres o exemplo para outra pessoa.

8 comments

  1. Mais um post excelente, Margarida! Muito interessante e eu, que nem estou no ramo, consigo rever-me em quase todos os pontos mesmo na minha “amadorice”. E numa altura em que já me começam a pedir orçamentos e em que fico na dúvida se sou eu que estou a dar um preço alto demais ou se as pessoas simplesmente estão à espera que eu trabalhe de borla, acredita que veio mesmo a calhar…não é que me tenha resolvido a questão, mas ajuda a validar que não estou maluca lol

    Jiji

    1. Oh Jiji <3
      Mais uma vez, obrigada pela tua presença assídua. Fico mesmo contente que te relaciones com este tipo de posts. Não sejas tonta, tu és incrível - como pessoa e fotógrafa - tens super talento e acho muito bem que as pessoas vejam isso!
      Percebo-te bem, também foi difícil para mim quando projectei o primeiro orçamento, mas com a prática, vai melhorando e vais-te sentido mais à vontade e confiante. E quando te "assumires" as pessoas vão perceber isso e não esperar borlas a toda a hora. É tudo uma questão de mindset e resiliência!
      Se precisares de ajuda em alguma coisa, diz sim?

      Mega abraço querido!

  2. Muito bom mesmo. Pensava que era só eu que sentia assim com alguns medos.
    Não sou fotógrafo profissional e nem nunca foi o meu objectivo é claro que gostava de fazer um curso de fotografia para ter mais conhecimentos sem ser por revistas ou pela web.
    Por algumas vezes pediram para fazer alguns trabalhos, mas recusei pelo medo de não conseguir satisfazer o cliente.

    Cumprimentos Os Piruças

    1. Muito bem-vindo Pedro!
      Obrigada pelo teu comentário e pela tua partilha. Tenho percebido que todos nós temos inseguranças e nos sentimos sempre um bocadinho sozinhos no processo, por isso achei que podia ser interessante falar sobre isso mesmo e mostrar esta visão mais humana.
      Fico mesmo contente que te tenhas identificado.
      Quanto aos medos bloquearem as experiências, procura ultrapassar isso, só experimentando é que sabemos se somos ou não capazes. Às vezes colocamos as expectativas tão altas que acabam por ser muito dispares das dos clientes.

      Um abraço e força para esses desafios!

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Segue-me

  • Dei-me conta que não existem muitas pessoas, que falem abertamente do lado mais cru e menos mágico de se ter um negócio por conta própria.

Não sei se conhecem o podcast Officina, mas um dos últimos episódios fala exatamente disso Também na semana passada, estive no terceiro encontro do She Works, onde se falou sobre as mudanças radicais de carreira e me identifiquei com algumas das questões levantadas. Foram estes dois momentos que me inspiraram a escrever sobre isto: o lado cinzento do meu trabalho, que muitas vezes não mostro e que nem sempre é um conto de fadas.

Para ler, no blog.

Um obrigada especial à @officinalis.pt, à @madebychoices, ao @nomadismodigitalpt, à @catalvesdesousa, à @filipammaia e à @cat_daydreams por falarem abertamente sobre a sua experiência! 💞 📸 Na foto estou eu e a querida @brunareisb, captadas por um transeunte, quando fotografavamos para o próximo Retratografia.
  • Um beijinho especial ao meu pai e a todos os pais que nascem quando o maior amor das suas vidas nasce também.
E que eu e a minha lente possamos sempre testemunhar esse amor. 💖
  • Já vamos a meio de Março e tem sido um levantar vôo a alta velocidade.

Peguei nas asas e dei por mim a estabelecer novas rotinas, a organizar a agenda e a fazer acontecer até quando as insónias me fazem uma visita.
Não há tempo para ficar a planar no ar, isso já foi lá atrás.

Há objectivos novos por cumprir e projetos novos para lançar. Ontem foi mais um dia de avanço, de sair do ninho e despir a carapaça - literalmente.

Em breve, vamos contar-vos tudo do @womanlinesphotography
esse projeto bonito que andamos a chocar. Cada coisa tem o seu tempo, e ao que parece o seu tempo está a chegar. 🌺
  • Hoje volto a este lugar bonito que já me viu em várias versões.

Volto à Academia @asnove, onde registei este abraço sentido e tantos outros momentos do Bloggers Camp 2018.

Desta vez é pelo @sheworks.pt que vou e para ouvir ao pormenor as histórias da @filipammaia e da @cat_daydreams, sobre isto de se mudar radicalmente de carreira.

Vejo-vos por lá? 😘
  • Quem é blogger ou empreendor digital e precisa frequentemente de fotografias para o seu projeto, sabe que fotografar dentro de casa pode ser um desafio.
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Porque a luz varia muito, as sombras são em maior quantidade e a luminosidade é sempre mais precária do que no exterior.
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Cá por casa é mesmo assim, a luz é pouca e varia bastante em curtos períodos de tempo. É preciso ter algum jogo de cintura para contrariar isso e produzir uma imagem de boa qualidade.
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Hoje trago-vos um dos meus "must-have" que é nada mais nada menos, do que um refletor feito de cartão branco ou de esferovite. É óptimo para diminuir o impacto e a profundidade das sombras, ter uma fotografia mais homogénea e clara e, não menos importante, super económico.
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Que acharam desta dica? 👌🏻
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#dicasdapestana #mpestanaphoto
#photographytips #interiorsphotography
  • Quantas vezes celebram as vossas vitórias?
- Começo eu: raramente.

E por isso, é meio caminho andado para desvalorizar as minhas conquistas, para senti-las como obrigação ou dever.
Estou sempre a esquecer-me disso e a menosprezar o caminho que faço.
Se és como eu, hoje fica aqui escrito: parabéns a mim e parabéns a ti, por tudo o que tens conquistado, por todo o teu trabalho, dedicação e perseverança.

YOU ROCK! 🤘🏼💖
PS: E para comemorar, sexta-feira vou estar no @sheworks.pt para ouvir duas mulheres incríveis falar das suas mudanças de carreira. Vai ser do caraças!